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Covid-19: Pesquisadores mineiros driblam orçamento apertado na busca por respostas à doença

Só na UFMG são 60 pesquisas relacionadas ao tema, que vão de desenvolvimento de testes rápidos a baixo custo a produção de vacinas.

Publicado em 15/06/2020
Por Por Patrícia Fiúza, G1 Minas

Se por um lado a chegada do novo coronavírus forçou o isolamento social, por outro, motivou os pesquisadores de todo o país a buscarem respostas para o inimigo desconhecido. Mas o desafio maior, afirmam, é encarar a escassez de recursos. No ano passado, o investimento de R$ 1 bilhão do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, não foi o suficiente e colocou em risco a existência de diversas pesquisas. Este ano, o valor é pouco maior, de R$ 1,06 bilhões.

Para garantir que a continuidade dos estudos, especialmente os de Covid-19, não seja impactada pela restrição orçamentária, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tem contado com apoio extra proveniente da iniciativa privada. Atualmente, a instituição soma mais de 60 pesquisas sobre o novo coronavírus, que englobam diversas áreas, de artes plásticas à economia, passando pela medicina e ciências biológicas.

 

"Parte de insumo que recebemos para ciência vem destas parcerias. Mas se o país não investir, não tem como setor privado sustentar desenvolvimento científico tecnológico", afirmou o pró-reitor de pesquisa da instituição, Mário Campos.

 

Campus Pampulha da UFMG  — Foto: Foca Lisboa/UFMG/Divulgação

Campus Pampulha da UFMG — Foto: Foca Lisboa/UFMG/Divulgação

Os estudos desenvolvidos na UFMG sobre a Covid-19 começaram ainda em janeiro, com grupo de estudantes da universidade que faziam intercâmbio em Wuhan, na China. Mas se intensificaram em março, quando os primeiros casos começaram a ser registrados no Brasil. Entre as apostas da Universidade, estão soluções para maior eficácia na testagem, o que inclui implantação de métodos mais baratos, e também produção de insumos que estão em falta no mercado internacional.

“Para fazer o teste, precisa ter o kit de coleta, swab rayon. Estes kits basicamente desapareceram do mundo inteiro. Um dos esforços do Instituto de Ciências Agrárias é o desenvolvimento de kits de coleta. Também está em desenvolvimento um swab feito a partir de impressão 3D, uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Ciências Biológicas e do Departamento de Química”, disse.

UFMG trabalha na busca de tecnologia para fabricação de testes rápidos e de baixo custo — Foto: Daniel Lair/ICB/UFMG

UFMG trabalha na busca de tecnologia para fabricação de testes rápidos e de baixo custo — Foto: Daniel Lair/ICB/UFMG

Em parceria com as universidades federal de São João Del Rey e Lavras, outro grupo de pesquisadores desenvolveu testes rápidos a baixo custo que estão prestes a serem disponibilizados ao mercado. A expectativa é que, até o fim do mês, a Anvisa autorize a fabricação dos insumos, que teriam custo de R$5 – muito abaixo dos valores praticados atualmente, acima de R$100.

 

“A vantagem é que consegue ter capilaridade na realização, com baixo custo. Os resultados alcançados por este grupo é inédito”, afirmou.

 

 

Também com o objetivo de ampliar a testagem na capital mineira, outro grupo de 30 pesquisadores, liderado pelo Departamento de Matemática do Instituto de Ciências Exatas, está negociando com a prefeitura de Belo Horizonte a implantação de uma metodologia simples e barata, que prevê a análise simultânea de diversas amostras.

A ideia é aplicar testes PCR também em pacientes com sintomas leves da doença, já que, atualmente, os testes só são realizados em pacientes hospitalizados, óbitos suspeitos, indígenas, profissionais da saúde e da segurança pública sintomáticos, presos e menores em cumprimento de medidas sócio-educativas.

Outra aposta da universidade é a produção de uma vacina, através do CT-Vacinas, em parceria com a Universidade do Estado de São Paulo (USP). A vacina será feita nos mesmos moldes da que já existe contra a febre amarela, em que um vírus vivo atenuado é utilizado para induzir a resposta de defesa do organismo, sem causar a doença.

Embora estas pesquisas atraiam mais atenção pela aplicabilidade imediata, o pró-reitor Mário Campos ressalta que existem outros estudos tão importantes quanto, mas que sofrem mais impactos com a restrição de verbas, por não terem a mesma instantaneidade dos resultados. "O investimento em ciência é fundamental tanto na ciência básica como na aplicada. Por conta da questão econômica, só se vê a aplicada. Acontece é a básica que alimenta a aplicada", pontuou.

 

“Se o Brasil não tomar uma decisão de estado, não pode só ser do governo, de investir de maneira persistente, consistente e continuada de pesquisa, nós vamos sucumbir. Nossa dependência científica tecnológica de outros países vai continuar eternamente”, completou.

 

 

Respirador a baixo custo

 

A falta de investimento pode impedir que um respirador a baixo custo e com capacidade de atendimento múltiplo seja disponibilizado a hospitais. Desenvolvido pelo Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), em Piumhi, Centro-oeste do estado, o equipamento já foi patenteado, mas precisa de patrocínio para ser produzido. A pesquisa, conta o doutor em Engenharia Civil Felipe da Silva Alves, foi desenvolvida totalmente de forma voluntária.

 

“A gente precisaria de patrocínio para poder construir o ventilador, registrar junto à Anvisa e poder disponibilizar nos hospitais. Por enquanto, a gente não adquiriu patrocínio. O governo húngaro foi quem manifestou interesse”, disse.

 

“A primeira vantagem deste equipamento é que é capaz de atender até 20 pacientes simultaneamente, com atendimento individualizado. Cada um pode requerer tratamento específico, seja na taxa de oxigênio, ciclo respiratório. Os outros tipos de ventiladores atendem a uma pessoa só”, explicou.

 

De acordo com o engenheiro, o equipamento pode ser submetido a esforço grande, sem precisar de reparo, porque há revezamento entre os compressores, um trabalha por 8 horas e, posteriormente, descansa por mais oito, o que reduz o desgaste da peça.

 

“O paciente pode ficar 23 dias precisando de um respirador. São de 12 a 40 respirações por minuto. Com isso, o equipamento pode sofrer determinado desgaste.”

 

Ainda de acordo com Felipe, os componentes são amplamente disponíveis na indústria. “Este custo fica em R$ 1 mil por paciente. Ou seja, seriam necessários R$ 20 mil reais para atender 20 pacientes. Tem ventilador mecânico no mercado que pode chegar a custar R$ 200 mil por paciente”, afirmou.