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Rotina redobrada sobrecarrega e pode adoecer mães na quarentena

Conciliar o cuidado com os filhos, o trabalho e as tarefas domésticas torna-se mais desafiador durante a pandemia.

Publicado em 10/06/2020
Por Diego Batista/Areado Notícias

Se a rotina das mães já era extenuante, agora, parece sem fim. Como medidas de enfrentamento da pandemia, as dinâmicas de trabalho, de estudo e dos lares mudaram profundamente – e com um planejamento mínimo. Vieram, de repente, a suspensão das aulas físicas, a adoção da modalidade de teleaprendizagem. As crianças, em casa 24 horas por dia, passaram a demandar mais atenção. Ao mesmo tempo, houve, para muitas mulheres, uma migração repentina para o home office. Assim, em um mesmo ambiente, sem muita diferenciação, convivem a educação formal dos filhos e a carreira profissional das mães – e elas, muitas vezes simultaneamente, se dividem entre as duas tarefas, tão distintas entre si.

Acentua o sentimento de exaustão a desigualdade na divisão das tarefas domésticas: culturalmente, é esperado que as mulheres se dediquem para a manutenção do lar – tarefa que se tornou mais difícil nestes dias, em que a família está o tempo todo sob o mesmo teto.

Situação assim é experimentada pela gerente de vendas Fernanda Zanco, 36. Antes que a pandemia do novo coronavírus chegasse ao país, ela tinha dias cheios, mas havia tempo para cuidar de si: entre o horário que deixava a pequena Luna, de 5 anos, na escolinha, e o início de sua jornada, tinha duas horas livres, em que praticava atividades físicas, por exemplo. Desde o início da quarentena, há quase três meses, tudo mudou.

“Antes, conseguia me dedicar exclusivamente ao trabalho e, depois, quando estava em casa, podia dar toda a atenção para minha filha, mesmo que as duas estivessem mais cansadas”, lembra, ressaltando que o cotidiano tornou-se outro. Com o contrato de trabalho suspenso, Fernanda passou a se dedicar a um negócio próprio: a venda de conservas e molhos artesanais pela internet. “Luna demanda minha atenção, preciso ajudar nas tarefas da escola e brincar. Ao mesmo tempo, precisava criar um site, redes sociais, elaborar uma identidade visual e produzir e comercializar os produtos, captando clientes e cuidando de toda a logística de entrega”, sinaliza. 

“Principalmente no início, tudo ficou muito complicado, porque eu não conseguia fazer nada direito: não dava a atenção que ela merecia e, profissionalmente, não rendia bem como planejava e precisava”, reconhece. Além disso, o autocuidado foi relegado a segundo plano. “Até tentei manter as atividades em casa, mas não estava funcionando”, lamenta. O momento que tem para si própria, diz, é quando se fecha no banheiro por alguns minutinhos.

Fernanda e o pai de Luna se divorciaram há dois anos, e, para evitar que a menina transitasse muito durante o período mais crítico da crise sanitária, a mãe passou a ficar com ela por mais tempo. Antes, duas vezes por semana e em fins de semana alternados, a pequena ia para a casa do pai. Agora, apenas de sexta a domingo, a cada 15 dias. 

Desigualdade de gênero em casa

A atribulada rotina de Fernanda Zanco causa identificação em muitas outras mães. Divulgada no ano passado, portanto anterior à pandemia, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua revela que as mulheres dedicam 21,3 horas semanais a tarefas domésticas e cuidados com pessoas simultaneamente, como, por exemplo, cozinhar enquanto olha os filhos. Entre os homens, são 10,9 horas semanais. A desigual distribuição das tarefas da casa e do cuidado da prole pode se fazer mais sensível no atual contexto: agora, elas também dividem a sua rotina de trabalho com a presença dos filhos e os afazeres domésticos.

O levantamento mostra ainda que a dedicação masculina aos cuidados domésticos até cresceu. Em 2016, 61,9% dos homens se empenhavam em tarefas do lar, número que saltou para 78,2% em 2018 – conforme a Pnad. Mas também houve aumento entre as mulheres, de forma que o compartilhamento de tais responsabilidades segue longe do ideal: antes, 89,9% dedicavam-se aos afazeres da casa, agora são 92,2%, considerando o mesmo período.

Se a desigualdade de gênero em relação a tarefas relacionadas ao cuidado já era uma realidade sociocultural, a quarentena potencializou isso. A empreendedora e community builder Mariana Bicalho observa que os debates e os desabafos sobre a dificuldade de estabelecer uma rotina minimamente confortável dominaram os debates na comunidade Mommys, que reúne cerca de 8.000 mães no Facebook. 

“Com toda a família em casa e sem nenhuma rede de apoio – nem escolas ou creches, nem mesmo o apoio de parentes e amigas, por conta das normas de isolamento –, houve um momento de desespero, de não saber o que fazer”, comenta sobre as postagens, que foram se tornando cada vez mais recorrentes. Por conta desse fenômeno, Mariana levou para o grupo uma série de lives, em que convidava mulheres que conseguiam lidar com a situação a falar sobre a experiência delas. “Hoje, noto que muitas já conseguiram criar mecanismos para lidar com esse novo mundo, mesmo que ainda esteja longe do ideal”, diz.

A administradora da comunidade de mães defende que é fundamental incluir na rotina algum momento de autocuidado. “Ficou mais desafiador, mas é algo que precisamos fazer por nós mesmas”, avalia.

Risco à saúde

Psiquiatra e integrante da Comissão de Estudos e Pesquisa da Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Christiane Ribeiro alerta que níveis de estresse crônicos podem levar ao desenvolvimento ou à piora de sintomas psiquiátricos, impactando, por exemplo, quadros de ansiedade e levando a uma perda de qualidade do sono – algo especialmente preocupante, dado que muitas mães têm trabalhado de madrugada para conciliar o emprego e a criação dos filhos. Irritabilidade e diminuição da concentração também são reações comuns. “É uma situação excepcional, que pode deixar mulheres mais propensas a transtornos psicológicos”, avalia.

Christiane também defende a necessidade de as mulheres tirarem um tempo para si próprias. “Existem meditações de poucos minutos, que já têm eficácia no manejo do estresse”, sugere. Fazer pausas e não misturar atividades domésticas com a rotina profissional é outra dica. “E, por mais que seja complicado que a criança entenda, é recomendável estabelecer horários e delimitar um local de trabalho, mesmo que esse espaço de trabalho seja uma mesa na sala”, indica.

Na avaliação da psiquiatra, a busca de apoio, mesmo que online, é importante neste momento. “Dividir sua experiência com outras mulheres que estão vivendo essa situação é uma forma de lidar com a angústia”, avalia. Algo que funcionou para a gerente de vendas Fernanda Zanco. Membro do grupo Mommys, ela conta que muitas vezes visitou a comunidade quando sentia que “estava tudo errado”. Ao entender que outras mães passavam pela mesma situação, sentiu-se melhor consigo mesma. 

“Primeiro que, ao ter contato com essas histórias, você não se sente um extraterrestre”, garante ela, completando que o mais importante naquele espaço virtual é a desconstrução do mito da mãe ideal. “É reconfortante entender que ter sentimentos negativos é normal e se sentir acolhida”, comenta.

Sob a mesma tempestade, mas nem todos no mesmo barco

Contextualizando que, ao debater como a rotina extenuante afeta o cotidiano das mães, Sabrina Finamori, professora do Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lembra que o tema é perpassado por recortes específicos de classe, raça e gênero. “A pandemia está sendo vivida de forma muito diferente em diferentes grupos. Todos na mesma tempestade, mas em diferentes barcos”, pontua.

“Quando falamos em mulheres de classe média e média alta, que foram realocadas em home office e que, agora, estão com os filhos em casa durante todo o dia, auxiliando na educação formal e, ainda, cuidando da casa, faz muita diferença ter ou não com quem dividir os cuidados com as crianças ou com o lar. Ter o parceiro ou outra pessoa que se corresponsabilize torna torna o cenário mais ameno”, avalia a antropóloga.

Para as mãe solo, o dia a dia torna-se mais árido, observa Sabrina. Ela lembra que o termo não designa apenas as mães solteiras, mas também aquelas que, mesmo casadas, não contam com a ajuda dos parceiros para a criação dos filhos.

A docente acredita que, por outro lado, a importância emprestada às atividades relativas ao cuidado se tornaram mais evidentes neste período - pelo menos, para uma parcela da população. “Tenho visto muitas famílias dizendo que, depois que tudo isso passar, vão valorizar mais as pessoas que cuidam das suas casas, que cuidam da educação dos seus filhos”, observa, emendando que esta deveria ser também uma oportunidade para rever as condições conferidas a esse tipo de trabalho – não por acaso uma mão de obra mais feminina e que é mal remunerada.