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Você sabe o que é um sistema agroflorestal?

Alunos da Escola Estadual João Lourenço participaram de um curso para implementação desse sistema aqui em Areado.

Publicado em 17/03/2020
Por Vivian Leite

Alguns alunos da Escola Estadual João Lourenço fizeram dos dias 7 ao dia 10 de março o Curso de Implementação de Sistemas Agroflorestais (SAF’s). Foi a primeira vez que este curso esteve na cidade, o objetivo é fazer uma demonstração de como funciona os sistemas agroflorestais capacitando os alunos para implementação desse sistema na prática. O curso, que é itinerante, é uma parceria entre COPASA e a fundação Banco do Brasil.

Alunos participantes:

Priscila Margarida da Silva – 2º 3

Júlio Matos Vieira – 1º 2

Murilo França de Souza – 2º 5

Ana Maria Pereira da Silva – 2º 5

Leandro Doizetti da Silva – 2º 5

Gabriel Micael Henrique – 2º 5

Augusto Galieta Lago – 2º3

Anna Clara Miranda Pio – 3º 2

Inácio Moreira Melo – 1º 2

Samara Maria Fernandes – 3º 3

A Organização das Nações Unidas para a agricultura e Alimentação (FAO) afirma que milhões de pessoas em todo o mundo podem escapar da fome, da pobreza e da degradação ambiental. Segundo a FAO, isso será possível se os países se esforçarem para promover a agrofloresta, um sistema que une árvores, plantações e a criação de animais. A natureza e as florestas recompõe a fertilidade da terra. Desde a chegada dos portugueses, já existia esse sistema feito pelos índios, mas era tão para dentro das florestas que os portugueses não reconheceram como agricultura.

Eduardo Moreira França é vice-diretor e coordenador pedagógico da Escola Estadual João Lourenço e também presidente do Coletivos Locais de Meio Ambiente - COLMEIA. O COLMEIA é um núcleo de ação socioambiental nos municípios mineiros ligados ao Programa Pró-Manancias da COPASA. As 10 vagas do curso foram oferecidas para o COLMEIA que fez essa parceria com a escola. “O curso começou na prática na sexta (6), só com os agentas da COPASA, preparando o terreno. Porque não é um curso teórico, é um curso prático. O que é uma tendência retomada da própria formação acadêmica, visto que hoje até as universidades estão substituindo as monografias escritas por trabalhos práticos. Então nós acreditamos muito nesse tipo de intervenção pedagógica, porque enriquece muito mais o currículo dos alunos quando se alinha a teoria com a prática.”

Os alunos escolhidos já faziam parte de um grupo de educadores ambientais e inclusive um deles, Augusto Galieta, é o representante estadual na conferência nacional do meio ambiente. “Por isso falamos tanto em oportunizar, porque a escola está sempre de braços abertos tanto para os projetos da secretaria estadual de educação, quanto para os projetos de parceiros,” completa, Eduardo. Segundo ele, o mais interessante foi que o curso foi 100% com alunos, ou seja, 100% juventude, e que eles se apaixonaram com o desenvolvimento dessa ação.

O programa Pró-Mananciais tem a intenção de aumentar a quantidade de água no aquífero. E dentro desse programa tem várias frentes em prol da melhoria da quantidade e qualidade da água e os sistemas agroflorestais estão em uma dessas frentes. O trabalho foi desenvolvido no Sítio Santa Terezinha no bairro Grama, sendo os proprietários senhora Inês do Carmo e senhora Paulo Rodrigues. Para a escolha do local onde a SAF será implantada levam em consideração se ali tem uma agricultura familiar e se tem um rio, que a cidade dependa dele, próximo. “Pois esse sistema vem como forma de as árvores fazerem com que a água infiltre no solo ao invés de só passar pelo solo compactado. É uma forma de reter maior quantidade de água ali. Além de produção agrícola para os proprietários” explica o técnico agroflorestal Rafael Sacomanni.

O que foi pedido ao técnico junto com o biólogo e voluntário no projeto, Kauê Jacques, era implantar um sistema agroflorestal em 1000m² em Areado.  “Fazemos um intermédio entre o bioma, o que o produtor quer, e o que o viveiro tem de mudas para daí montarmos o SAF. Plantamos espécies nativas, usamos plantas adubadeiras para fornecer adubo para o solo, ensinamos os proprietários a sempre podar as árvores, para trazer matéria orgânica para a terra. E tem as plantas secundárias que vão fornecer frutos, ali plantamos acerola, ingá, amora, jabuticaba, abacate, jequitibá rosa, jatobá. Esses dois últimos, por exemplo, vão durar 200 anos, 300 anos.” De acordo com o técnico a ideia é colocar essas espécies clímax para que perdurem durante muito tempo.

Na literatura o sistema agroflorestal é um consórcio entre produção agrícola e o plantio de árvores. Pode ser sistemas simples como eucalipto e pasto, mas pode ser um sistema mais diverso como este realizado no sítio. “Fazemos uma proposta bem ousada com espaçamento de 1 m cada muda, muita muda para pouco espaço. Isso é legal porque vamos podando as árvores, e além de gerar adubo entra luz e o produtor pode ir consorciando com hortaliças. Cada linha do plantio de árvores tem espaçamento de 4 metros, e nas entrelinhas plantamos a braquiária para que o beneficiário roce os 4 m dessa braquiária para alimentar as mudas.” Rafael conta que houve uma mudança nos hábitos dos proprietários do sítio, que antes rastelavam para deixar o solo limpo, mas agora vai ser a entrelinha limpa e a linha das árvores cheia de matéria orgânica (que é braquiária roçada). Além disso, o projeto disponibilizou um sistema de irrigação por gotejamento.

Para a aluna Priscila da Silva o aprendizado foi algo bem diferente: “Foi muito bom, porque aqui em Areado o plantio é muito tradicional, não temos opções. A forma que eles fazem é muito interessante, mudou o que conhecíamos sobre agricultura.” O aluno Augusto Galieta comenta que ficou surpreso com o espaçamento das mudas, pois normalmente é de 6m, 8m de distância, já que tendemos a achar que uma pode atrapalhar a outra. “Mas vimos que pode plantar perto e que é até melhor porque uma muda ajuda a outra. Também achei interessante a variedade de mudas na mesma fila, eles vão alternando entre diferentes espécies de árvores, ao contrário de uma monocultura.”

O técnico Rafael explica que no processo de monocultura vai ter competição porque as mudas são iguais, e quando você trabalha com sistemas agroflorestais com 1 m de espaçamento entre as mudas, com mudas diferentes, elas também têm exigências diferentes tanto de luz quanto de água, com isso a competição se transforma em cooperação. Para o biólogo Kauê temos o exemplo disso em cada bioma, “você não tem uma espécie de planta que seja uma ‘praga’, existe uma biodiversidade, existe um equilíbrio nas relações. Então a ideia de agrofloresta é trabalhar como um ecossistema mesmo, na mesma dinâmica de uma floresta.”

Para o técnico Rafael, o que fica não é o sistema, mas a ideia na cabeça desses jovens, porque a cidade de Areado tem um potencial gigantesco. “Os SAF’s servem tanto para restaurar uma área degradada por pastos, o que por aqui tem muito, quanto para o produtor melhorar seu sistema de cultivo, principalmente do café. O café é uma cultura que veio da Etiópia e lá na origem dessa cultura, ela é sombreada, ela gosta de uma sombra para produzir mais, ele demora mais para maturar, porém matura com melhor qualidade.” Ele explica que com outras espécies plantadas junto com o café fazendo sombra os grãos vão amadurecer uniformes e não serão forçados a amadurecer só aonde pegou sol.

Os alunos ganharão certificados do curso com duração de 32 horas e pretendem aplicar o que aprenderam na própria escola, porque possuem uma horta cercada.

 

Confira as vantagens de um Sistema Agroflorestal:

•Devolver ao solo, com a queda de folhas, ramos e galhos, parte dos nutrientes retirados pelas raízes;

• Aproveitar a energia do sol pelos diferentes estratos (camadas) das espécies vegetais;

 • Aumentar a matéria orgânica, contribuindo para melhorar as condições físicas e químicas do solo e, por consequência, a sua capacidade de retenção de água;

• Proteger o solo contra a erosão;

• Contribuir para regular o ciclo da água no local;

• Tornar os sistemas de produção mais resistentes às variações climáticas, proporcionando, desse modo, sombra e proteção contra a ação do vento;

• Gerar receitas no curto e médio prazo com cultivos agrícolas ou atividades pecuárias, favorecendo a implantação de árvores na mesma área, cuja renda virá em longo prazo;

 • Reduzir a ocorrência de pragas e doenças, diminuindo a necessidade de uso de insumos químicos, exigindo menor investimento;

• Promover a melhor utilização da mão de obra ao longo do ano; e

 • Conciliar a produção florestal com a produção de alimentos.

 

CRONOGRAMA DO CURSO