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Contrapontos brasileiros

Publicado em 02/05/2017 por Vivian Leite


Ainda que nosso país tenha uma grandiosidade em recursos naturais e com um PIB (Produto Interno Bruto) que está entre os 10 maiores do mundo, o Brasil tem uma distribuição de renda extremamente desigual. Pesquisas nas áreas sociais e econômicas demonstram que o contexto histórico foi o fator preponderante que desencadeou esse resultado. São vários os  fatores que tornam o  Brasil um dos campeões mundiais em desigualdades sociais, como: colônia de exploração; um dos últimos países a abolir a escravidão; concentração de terras; desigual acesso à educação entre classes sociais e baixa qualificação; evasão escolar; baixo crescimento econômico do país; diferenças na qualificação profissional e nas condições salariais entre brancos e negros; inflação alta e carga tributária que sobretaxa produtos, reduzindo o poder aquisitivo das classes sociais menos favorecidas, as quais sobrevivem de salário mínimo ou com valores menores.

Na década de 50 acreditava-se que o a industrialização profunda mudaria o cenário de pobreza da população. O governo tinha como meta criar modos de inserir essa população no mercado consumidor. Contrapunha o desenvolvimento ao subdesenvolvimento e almejavam quebrar este último por meio de industrialização e reformas sociais. O resultado foi bem diferente, já que grandes grupos econômicos dominaram, a produção era voltada para o atendimento de uma estrita faixa da população e a mão-de-obra foi substituída por máquinas, gerando desemprego. Isso gerou riquezas nas mãos de poucos, história que se repete com o atual governo.

O PIB em 2015 chegou a R$ 5,9 trilhões, e o PIB per capita ficou em R$ 28.876, mostrando uma redução de 4,6% em relação a 2014. Nosso país vive em contradição por estar entre os dez países do mundo com o PIB mais alto e no outro extremo está entre os dez países com maiores índices de disparidade social.

A concentração renda média que é calculada pelo coeficiente de Gini, aponta o país como o 10º mais desigual do mundo e o quarto da América Latina, à frente apenas de Haiti, Colômbia e Paraguai. Fomos o único país do BRICS a diminuir a desigualdade social na última década, entretanto, o Gini do Brasil é o maior entre todos os membros do BRICS e o dobro da média dos países ricos: 10% dos mais ricos ganham 50 vezes mais do que os 10% mais pobres.

Houve uma redução na desigualdade social realmente, pela primeira vez em 11 anos. Contando com indicadores de educação, renda e saúde, agora estamos na posição 79º entre as188 nações no ranking de IDH. A nota do IDH permaneceu 0,754. E não, isso não representa algo positivo. Uma vez que esse número só caiu porque todas as classes ficaram mais pobres, a metade mais rica dos brasileiros sofreu uma queda dos rendimentos comparada a metade mais pobre. A queda do índice só seria positiva se todos ficassem mais ricos e não o contrário como aconteceu.

A concentração de renda agrava a qualidade de vida da população, pois aqueles que recebem menos são obrigados a acumular grandes jornadas de trabalho para manter uma renda que lhes permita a sobrevivência; essa renda não lhes possibilita o acesso a eventos culturais e práticas de lazer, como viagens, visita a museus e teatros, shows e outros eventos.

Esse cenário também tem reflexos na qualificação profissional, pois dificulta a realização de uma educação básica de qualidade e o ingresso do trabalhador em cursos superiores de graduação e pós-graduação. Pesquisas estudos e levantamentos feitos por órgãos competentes apontam que os países onde a desigualdade social é elevada, são os que registram índices igualmente elevados de outros fatores negativos, tais como: violência e criminalidade, desemprego, desigualdade racial, guerras, educação precária, falta de acesso a serviços públicos de qualidade, diferenciação de tratamento entre ricos e pobres, entre outros.

Para resolver esse problema seria fundamental o acesso a uma educação pública de qualidade, atendendo à realidade das populações envolvidas e que possa formar os cidadãos para uma ação política comprometida com os interesses coletivos. Que as pessoas enxerguem a educação não apenas como um processo de formação de mão-de-obra para ser absorvida pelo mercado de trabalho, mas essencialmente como um processo de formação da cidadania plena, que prepare seus sujeitos para participar ativamente de todos os espaços políticos (governamental, municipal, estadual, federal, poder judiciário, mídia, audiências públicas etc.), atualmente ocupados quase inteiramente por representantes das classes dominantes. Mas, a questão da educação é complexa visto que nosso país é pobre e injusto, com todos os recursos nas mãos de poucos que controlam todo o país política e economicamente, enquanto o social, os direitos humanos ficam esquecidos. Como os mais pobres vão prosperar sem o básico para viver como saúde, higiene, moradia e alimentação? A educação não pode dar resultado em crianças que não tem o que comer, o cérebro precisa de combustível.

A superação da desigualdade social não pode acontecer somente em nível individual com força de vontade e determinação no trabalho. É preciso pensar na superação das desigualdades sociais em nível coletivo, de classe, com a união dos grupos explorados e oprimidos (sejam eles de trabalhadores, de mulheres, negros, homossexuais, sem-terra, sem-teto etc.) se voltando contra a fonte da exploração que se encontra na raiz do sistema capitalista.