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Quem se lembra do Monsenhor Faria?

Publicado em 13/09/2017 por Sandra Prado


Alto, cabelos ralos, olhar terno e pacífico, óculos seculares, batina preta com cinto vermelho...Monsenhor Faria vive nas minhas lembranças . Uma saudade impaciente se apodera de mim, enquanto teclo. 
Páraco, professor de Filosofia, bondade extrema nas palavras e atitudes.

Quando findava a quaresma, eu tinha de me confessar e era ele quem ouvia os mesmos pecados anuais da minha inocência infantil-: Roubei doce no armário da tia Áurea, bati na minha irmã mais nova e “ jurei falso”-este último era o mais cabeludo...minha mãe vivia vigiando minha boca para que não o cometesse, dizia que era pecado mortal cujo “cometimento”levava a gente pro tachão do capeta...krendospai!

Formava-se uma fila de crianças na porta do confessionário , enquanto o sol esquentava os ciprestes do antigo coreto onde minhas amigas e eu bricávamos de princesa. Havia uma cortina roxa na janelinha, quando uma criança saía, Monsenhor chamava a outra. Já idoso, ele era mal resolvido da audição...eu confessava os pecados bem baixinho

. Minha penitência era sempre a mesma- rezar um padre nosso e três ave-marias para Nossa Senhora Aparecida. Como meu juízo infantil não atinava para a importância do ato, muitas vezes rezei a penitência antes da confissão para adiantar o serviço, depois saía da igreja com a alma em paina atrás das brincadeiras.

Monsenhor era alegre e bonzinho, muitas vezes passava as mãos na minha cabeça num gesto carinhoso e apressado. Nunca o vi mal humorado. Minha prima se lembra de que jamais conseguiu contar todos os botõezinhos vermelhos de sua indumentária cotidiana. Quando estava na metade, ele se despedia da prosa com seus pais e ia embora.

O tempo passou, ele tornou-se anjo e eu, de posse das minhas lembranças, ainda trago no coração seu jeito simples e terno de ser bom, justo e honrado.

Saudades!...